quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Desenhador

A Tasca de Belas



O medo mora na estrada de montanha
assim como o frio, a fome e a infâmia
que foram o alimento da alma do avô
é fácil imaginar o salto da máquina
para além do viaduto,
num voo de três segundos.

Acredito em nós
como
na implacável matemática
ou na terra que é plana
como uma laranja.
Acredito no desenhador
que junta os traços
por intuição, unindo pontos
que  lá estão 
com os pontos que faltam
sendo em maior número
os que jamais virão.

Entrei no café da esquina
e os clientes matinais
ruminavam em frente
 aos copos de vinho
do mata-bicho
da jornada de trabalho.
Em Roma sê romana
assim me deslocalizei
abrindo o Correio da Manhã
na mesa do canto.

descobri desse modo que o medo
mora da estrada de montanha
onde o desenhador interrompeu
o esboço por três segundos no céu
e o pobre automobilista perdeu o nome
lá para os lados de Loures.

Era para ter sido uma carta
interrompeu-se por falta da voz
ao fim de muitas página,
por falta de pontos a unir os traços
que se interromperam por segundos
e lá caímos na armadilha
de sermos (involuntariamente)
 a mesma pessoa de sempre,
engenho estéril de asas,
útil apenas
na descida para o grande nada.

A fobia é plana como uma laranja,
recusa, por cobardia, medir forças
com a lógica e os outros frutos
da ciência.
A fobia não vai a jogo
nem sequer faz bluff.
Acredito em nós
como na sequência certa
das histórias ocultas.
Acredito no desenhador
e na sua esplendorosa
caligrafia.
Acredito no desenhador
ainda que me assalte
com dúvidas.







quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Véu Pintado



"A maior jornada
é a que se faz
percorrendo a distância
entre duas pessoas"


A história começa no instante
em que o segundo nome decide
(por razões ainda indecifráveis)
iniciar a jornada.
Esta antecipação deixa
incubando um contágio
(um beijo de meio segundo)
na boca
do primeiro nome.

Partidas desencontradas
costumam recuperar simetria
no repouso dos nomes.
Abreviam-se desequilíbrios
por crescimento de um desejo.

No que diz respeito
aos nomes
a bondade é uma esgrima
que dá razão à fé
na mobilidade das flores
mais sensíveis.


Assim surgiu um balanço
entre dois extremos
que ora se tocam
oram se afastam
e não se tomam de fastio.


Por isso me atrevo a dizer
que liberdade é
totalmente feminina
quando há um oráculo a corrigir
significados,
a fechar represas
tentando conter incêndios
deflagrados,
a arquitetar obras
remendando
desmoronamentos.


Porque a esgrima
é uma força que apenas avança
(até nos seus recuos teremos de adivinhar
intervalos)
e que nem mesmo pela raiz da cólera
poderá ser travada.

O que dizer da distância entre dois nomes?
Quando o enredo
se enterra num livro,
filme, música ou poema
nada se declara.
Quando a viagem
for mera metáfora
responde
apenas a uma pergunta
que se crê primordial.






quinta-feira, 9 de novembro de 2017

PSEUDO-NAMORO





Bem-vindo, Benjamim,
às acácias floridas
do papel perfumado
do meu namoro.

O teu estranho caso,
não viu, ai não viu,
não viu Benjamim,
é conversa de botões.
Surgir perdido
entre morros de bairro
tão quente e gaiato
é motivo de espanto
bem forte e seguro,
para me distrair
em bailes de poesia falada.

Tua pele macia, Benjamim,
era sumaúma,
cheirando a rosas,
tua pele macia:
rosas escondidas no meu regaço.
O teu sorriso
brincando de artista luminoso
na fímbria de um Novembro
tão rijo e tão doce
de joelhos no chão.

Mandei-te um recado ou dois,
já eram mais de sete,
quem diria,
Benjamim,
que dobrado o primeiro NÃO
pela tua mão seria.

Procuraram por mim
as moças mais lindas
e eu lá estava num canto a rir
vendo um Napoleão
em toda a parte.

Levei ao rei Xerxes,
guerreiro de fama
a marca do pau que a tua fé deixou
para que fizesse um feitiço
espalhando diamantes
dando calor aos sumo das mangas.

Tocámos a rumba, Benjamim,
dançámos na sala
e a estrela riscando o céu,
quando sobre o asfalto
atravessei a cidade,
quem a viu fui eu.

Olhei-te nos olhos,
sorriste para mim:
Deus nos livre de sucumbir
às semelhanças irreconciliáveis,
Benjamim,
Dobremos o SIM.




sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Poema Perverso


Reclining female nude by Egon Schiele


Por vezes, por verso,
de assalto,
temos o avesso
do que está escrito.
Não temo a dulpa
estocada artística
de duas cabeças
condecoradas
ao leme,
à vez
singular
num barco
de alto aprumo.
Amar
é uma soma
de correntes
contramão
multiplicadas
num fio inconcreto,
linhas que se cruzam
desalgemadas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Bagagem

Beetle car, Brienna Pruce



seguindo
sem hora
estrada a fora
o risco
sob o pneu
as entranhas
do poema
peixe por dentro
aberto
marca pacho
em ferida
pulsação
na curva da voz
peso pesado quase
a fazer voar
as oscilações
do volante
lavo versos
clandestinos
ocultos em maços
dos pacotes
da bagagem
silêncio sôfrego
montanhoso
que me protege
da condenação
pelo colectivo
de meretrizes







terça-feira, 31 de outubro de 2017

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

JÚLIA POSSUI UMA ARMA




está enganada
a hora é certa
preces são
mundanas ameaças
vãs
quando as ausências
involuntárias
são catástrofes naturais
por decifrar
observações patológicas
destreinam a vista
para os melanomas undercover
e seres do outro mundo
longe de casa
saudosos
que só pretendem dizer olá
alguém vai ter de pagar
a corda parte
o tiro corre
mas a culpada
não estará em casa

sábado, 7 de outubro de 2017

memória futura








o tempo plantou-se à espreita nas palavras

e esperou que viesses

a língua depositou caligrafias na pele

decalque

para a memória futura do teu corpo

surpresa

na maré viva

do meu ventre







segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Pessoas do passado, pessoas do futuro

Há dois tipos de pessoas, as do passado e as do futuro.
As pessoas do futuro são as que se transportam diariamente para o dia seguinte. Quando lá chegamos encontramo-las à nossa espera. Antecipam-se ao pensamento e, assim, por lá continuam a habitar.
As do passado não avançam. Fixam-se no dia em que as deixamos de ver. Para que as encontremos temos de nos lembrar delas. Ora, como bem sabemos, recordar é contra as forças da natureza, dá trabalho. Por vezes incomoda.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Fogo




O elemento
da protecção civil
deu o fogo
como controlado
mas não extinto.

Aquiesci,
dei o peito
às cinzas
e ardi
silenciosamente.




terça-feira, 26 de setembro de 2017

POEMA SOBRE A MINHA MÃE (de Duarte Marques)





Mãe

Tu és a melhor mãe que eu já conheci no mundo inteiro.
Nem na Amazónia conheço uma mãe como tu.
Tu és a melhor.
Sempre que te pergunto qual é a tua cor favorita tu dizes:
não sei!
És tu!
Tu és o meu favorito,
favorito entre todo o mundo!
Tratas-me bem como tratas todos os outros cães.
Cães da tua clínica e de todo o mundo.
Mundo de mais de mil cães.
Tu adoras cães.
Os teus olhos brilham como o sol.
Os cabelos como o mar.
És a pessoa que tem mais sentido para mim.
Não sei como é que nasci de uma bela concha como tu.

domingo, 20 de agosto de 2017

Poção Trágica




chego a ver
subindo as escadas
esse leite iluminado
fruto do olho cego
veneno agonizador

as minhas mãos
desirmanadas tomando-o
obedientes
duas cabeças
de cabra
sem mancha
oferta queimada
de cheiro suave
ao senhor

as mãos
como pés que marcham
vão à boca
obstinada
beber o mal
para alcançar o bem

ser doce cúmplice
é cumprir no silêncio
a expiação da culpa

e tudo aceito
por tua vontade
como se também eu
acreditasse
adeus











quarta-feira, 19 de julho de 2017

Space Oddity



Imaginemos por um instante, façam-me lá esse pequeno agrado, o Neil deGrasse Tyson a ler no Facebook as declarações daquele grupo de pessoas que acredita piamente que a Terra é plana.
Eu diria que encolheria ligeiramente os ombros, abanaria desconsoladamente a cabeça duas ou três vezes e passaria adiante, para a estrela mais próxima ou mais distante, aposto que o estudo da mais longínqua lhe dará mais entusiasmo.
O que um grupo de centenas de milhares de “rednecks” escolhe acreditar por ignorância pura não tirará o sono, nem a concentração, a um astrofísico que se dedica à divulgação científica com afinco e alegria. Tyson trabalha, respira e vive para levar o conhecimento a quem o quiser receber.
Aprender é um processo activo, tem de haver uma vontade consciente e voluntária de quem recebe a informação.
Da mesma maneira a ignorância implica uma vontade activa de recusa de conhecimento. A ignorância não é sinónimo de desconhecimento.
Cada um de nós transporta um certo grau de desconhecimento que é sempre elevado em relação à quantidade de conhecimento disponível sobre uma imensidão de assuntos e que é impossível abarcar no tempo de uma vida. Desconhecer é inevitável, e acontece sem a nossa colaboração.

A ignorância, é a busca voluntária e consciente do desconhecimento. Acontece quando alguém sabe que existe uma determinada informação mas prefere manter-se longe desta. Prefere não saber. Trata-se portanto de uma escolha, uma liberdade.
Como devem calcular a ignorância pode ser por vezes útil. Ninguém pode saber tudo sobre tudo, há que fazer opções pois os nossos neurónios são finitos e convêm poupa-los.
Podemos até ter a necessidade ou o simples capricho de ignorar certas pessoas. Quem nunca?
Nem toda a gente me interessa. Eu não interesso a toda a gente. Por isso sou ignorada por algumas pessoas e não posso levar-lhe a mal. Cada um tem os seus gostos. E é assim que está certo.
Terminando este parêntesis e continuando o meu exercício de imaginação, voltemos ao Neil. Ele vai lendo barbaridades na Internet, nada de novo no reino da “Dinamarca”, e tal, quando lhe passa pela vista um discurso de um professor de física lá do burgo, com prémios recebidos, medalhas de mérito, doutoramentos, pós-graduações aos magotes, reconhecimento unânime dos seus pares, em que este afirma que a terra é plana, descobriu em sonhos a noite passada, jurando a pés juntos ser verdade, verdadinha, que eu morra aqui e tudo.
Se calhar, desta vez, não se lhe encolherão os ombros, nem a cabeça abanará dolentemente. Talvez as rugas da testa se tornem mais sulcadas e os lábios contritos de preocupação. Um físico que apregoa uma mentira está a propagar um fogo na floresta do conhecimento e a impedir que as pessoas que buscam a sombra fresca e reconfortante da verdade científica a possam alcançar.
Estou a ver o deGrasse a enfiar o seu equipamento de bombeiro, apanhar a sua mangueira e em segundos ficar pronto para a luta contra o fogo ardente da idiotice. Vejo-o até a ligar o seu SIRESP, felizmente, neste caso, um SIRESP amigo e eficaz: o Bill Maher, o John Oliver, o Stephen Colbert e os jornalistas em geral para desmascarar o Físico-impostor ou o Físico-enlouquecido, não sabemos mas para o caso vai dar igual.
E assim, o Neil Tyson vai usar a melhor arma contra as chamas negras da irracionalidade: a palavra, o veículo do pensamento inteligente do Homem. Se não bastar a palavra, venha o canhão maior: a Matemática.
Se nada disto der certo perguntem ao Major Tom, ele sabe, ele esteve lá.

domingo, 16 de julho de 2017

UM POEMA DE FERNANDO PINTO RIBEIRO





SALMO
                                               a João Bigotte Chorão.
Estou morto.

Mas a vida
lambe a minha pele em labaredas.
Sou noite.
Mas o dia
põe-me nos lábios papoilas
e coroa-me de espigas o cabelo.
Ceguei.
Mas a luz
vem poisar-me sobre as pálpebras
outras tantas borboletas inquietas.
Não oiço.
Mas o eco do silêncio
canta o hino imenso que eu não posso.
Não respiro.
Mas aspiro o alento
da maresia no vento.
Não sinto.
Mas pressinto: a minha alma arde
e uma chaga floriu na minha carne.
Não choro.
Mas tremem estrelas cadentes
nas lágrimas pendentes que sustenho.
Não canto.
Mas sopro nuvens
no pó que levanto.
Não ando.
Mas todo o meu espírito
vadia sem folga nem descanso.


Não durmo.
Hiberno: verme     esvurmo limo e lama
no fosso em que me enfurno
aninho e faço a cama.
Não amo.
Sobre a seta quebrada no meu peito
raiva uma fonte de sangue
a incendiar a sede     a incinerar a fome
dos homens     dos bichos     das florestas.
Não sonho.
Mas a fé
faz da esperança e da saudade
sentinelas do sepulcro
onde     vivo     o meu coração jaz
pisado por cavalos em tumulto.

Estou morto.

Mas o sol explode
a luz esplende
em plena primavera
neste corpo

que me prende

e me suspende

absorto.

sábado, 24 de junho de 2017

Um Bentley ao Batráquio




Vai de Bentley, o batráquio
Corre a estrada qual ciclone
Meio milhão não é prejuízo
E dá um estilo à Stallone
 
Por ajuste secreto responde
Alegadamente picou o anzol
Vejamos o que debaixo esconde
Dos campos sintéticos do futebol

Acelera veloz p'ró Caracas
O teatro do centro refundado
É verde alpino, é do caraças
Não, não é dele, é emprestado

Um batráquio num Bentley
Imagem que a ninguém doa
Dúvidas responde perante a Lei
É um senhor, será pessoa?









sexta-feira, 23 de junho de 2017

Lições

Da vida recebo toda e qualquer lição.
Reservo-me o direito de escolher os mensageiros-professores.

Doutor Tempo



Um dia destes
sofrerei
a última
e cruenta
transformação.
O rei dos especialistas
sem bisturi opera,
o maior cirurgião.
Deixarei por fim
de ser mulher.
Velha apenas.

Onde está o Bebé?



Ilustração de Edward Gorey


nem o amor de mil homens
quanto mais de três
ou quatro
e mais sete
amantes por fora
a morrer à migua
porque não foi suficiente
o do primeiro
quando era preciso
o papá
que pena
mais
uma bebé estragada
por falta de mimos

protagonista


Gloria Swanson and a lion pose for "Male and Female."


a artista 
consagrada doutra era
caiu no casting
para papel secundário
digno apesar de curto
útil em fim de carreira
afinal era de figurante
quis fugir horrorizada
mas usou dos artifícios
do Métier
contendo-se
lembrando-se
também o Hitchcok
e o Stan Lee 
se divertiram
figurando em filmes
onde outras estrelas  
brilharam
assim
retocando 
a maquilhagem
sorriu
atuou
saiu
de cena
altiva
serena
ninguém viu

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Poker Face




Cedo por facilitar
Nada é por troca
Que venha a ganhar
Quem o naipe toca

Autorizada a aposta
Não vai combinado
Jaguar não é lagosta
O jogo é válido

O palpite de fairplay
À partida era pálido
Tiro ao Ás, tirei o Rei
Fumaça, já foi sólido

Na derrota há aprender
Não há luto, lamentação
No ígneo bom perder
Reside a boa educação



segunda-feira, 12 de junho de 2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

o tempo é bala

René, Magritte- o Filho do Homem,
versão de Sylvain Coissard e Alexis Lemoine







o tempo é bala
o tempo embala
no início vai-se
num baloiço
mais tarde
o tempo ameaça
e logo de cabeça
aterramos fundo
no chão
o tempo mata

segunda-feira, 29 de maio de 2017

uma ideia de ti



David, Bernini


fico-me pela ideia de ti
sem pesquisa ou reportagem
mera conjectura imaginária
um traço no céu
sem remexer nas catacumbas
desse teu sotão
não venho para fazer o bem
mas para beneficiar
acredito na bondade da inércia
evitar distúrbios e perpetuar
o movimento ou o repouso
o que está
é o que tem de ser
esta ideia de ti
permite o respeito
do teu ritmo
és um rochedo
mais do que pedra enrijecida
um portentoso esconderijo
condeno-te a essa 
estatuária categoria

capitulando

Capitulando, capitulando, estamos todos na mesma situação, capitulando, capitulando sem querer capitular.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Gigi, o profissional do golo


Shadow Man


Dá gosto mirar a figura
a correr o campo,
p'ra cá e p'ra lá,
toda uma azáfama
coreografada
de afincados pormenores,
primorosas fintas,
articuldas e estratégicos
desarmes,
o esplendor na relva.
No perfeito domínio
da técnica seria mentira
prometer falhar
o lance quando
a baliza vai aberta.
Quem de tal maneira
golo marca
não é gaio,
é mais gajo que deseja
passar por galã
e quase passa
tal é a íntima qualidade
do profissional.
Deve ser bem pago.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O mundo é nosso



O mundo, farto de paz,
começou com uma explosão
e fez-se implacável.

O Sol fez-se
para arder e devorar.

O predador fez-se para cobrar
as presas
com a força de entrar na carne
e quebrar os ossos.

Tu obedeces à lei do mundo
cumprindo essa prisão
libertadora,
a biológica missão
que carregas
no ventre.

Não será por tua vontade
que se dissolverá
a vantagem do mais
forte.

Ah, a ilusão doce
de que o mundo é nosso.

chuvinha da boa

chove a tua língua
na fonte
da minha sede
trava fome
seminal
até ao dilúvio
terminal

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Palavra Voadora Não Identificada




O ventre estacionado no convés
e eu montada na tua sela
ou tu na minha,
confundidos os cavalos que éramos nós.

A palavra luminosa,
um néon pendendo ao alto.

A minha mão tateando os teus rochedos,
o pensamento preso na decifração da imagem.

A palavra fintando-me a leitura

e eu subindo a colina do teu peito.
Procuro uma resposta no livro
que mostravas nos olhos mas
só lá está agora o branco.

A palavra sinuosa
submergindo na pele.

No centro do leito dois corpos
vão rasgar um mar ao meio
num minúsculo milagre precário
e logo serão subtraídos
ao silêncio,
espuma das sobras
na voragem da maré.

Da palavra nem sombras.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

temp

O Abraço, Egon Schiele, 1917


no acto bendito
e dilatado da visita
encontro
corpo adentro
o outro
no átrio o recebo
com carinho
dirigido que foi
com a mão
ao caminho
da porta trampolim
ele entra
e entra
e entra
entra ainda
e se repete
marinheiro repescado
prendendo-me na surpresa
do passadiço
de cordas içadas
perdendo-se em mim
vai o mar encapelado
temporal mais que perfeito
desagua náufrago
no fim do mareio
vem a nós  um mar
domado na ponta
eterna
do lingote dourado

segunda-feira, 24 de abril de 2017

coração cordeiro

Wool heart from Sarah Illenberger



no fim dessa roda viva
de holocaustos
para aplacar o teu medo
o meu coração cordeiro
cansado da ressuscitação
deixa-se ficar

sábado, 15 de abril de 2017

A morte tem a minha cara

Salvador Dalí, Ballerina in a Death’s Head, 1932




a morte tem a minha cara

na geometria incendiada
das mãos
atravesso a rua
desconhecido sorriso
famoso mil
vezes monalisa
para o outro lado
do espelho
onde os ossos
meros traços confluem
no logradouro da despedida
os veios rubros servem
de amparo comprometido
desculpa à libertação
da cauda pendente
(de cadáveres ondulantes)
rasante do vestido
no chão














terça-feira, 21 de março de 2017

Mistério diário





O dia é sempre o mesmo,
recomeça pela manhã,
mistério ao rubro.
De muito olhar
pela janela,
o homem
desamparado,
vai morrer
por
falta de asas.
Ainda hoje
e sempre.

domingo, 12 de março de 2017

os russos



Devo a minha vida aos russos. Não falo do povo da Rússia, nada contra, mas sim dos bolos, aqueles deliciosos folhados com recheio branco no meio, quase chantili, muito melhor que esse creme. Ainda parece que estou a saboreá-los agora, a sentir essa espessura por todos os dentes e com todo o poder de língua como por altura dos meus sete anos quando a minha mãe chegava da baixa e me trazia, da pastelaria Suíça, uma caixa branca fechada a cordelinho com meia dúzia deles. 
Eu era, na época, uma criancinha enfezada de muito pouco apetite, quase sempre afectada por amigdalites recalcitrantes. Era um castigo para comer, para mim e para a minha família. Levava horas à mesa enrolando a comida nas bochechas, mastigando a custo, cuspindo sempre que podia e de cada vez que ninguém via. Levava até umas belas palmadas da minha avó que era dada a enervações repentinas durante as dilatadas horas das refeições de fastio. 
Teria sido uma infância feliz não fosse este martírio da alimentação.
A vida mudava perante a caixinha dos bolos. Mal eu pressentia a minha mãe chegar dessas paragens gastronomicamente paradisíacas corria para a receber, ou melhor, para usufruiu da minha iguaria preferida. Não, minto, não se tratava de primazia, na verdade, para além desses doces, não havia mais nada que me soubesse bem ou ingerisse com satisfação. Os russos ou o jejum, sem compromisso.
Foi assim que um dia, ao abrir a caixa e olhar para as ditas guloseimas recusando-as, a minha mãe correu comigo ao hospital onde me salvaram de morrer sufocada. As amígdalas estavam transformadas em duas bolas gigantes de pus branco. E, não fora a caixa dos bolitos, ninguém adivinharia os monstruosos abcessos. Benditos, os russos.

sábado, 11 de março de 2017

Senhor Carlos





O Sr. Carlos não se chama Sr. Carlos. Na verdade não sei o seu nome. Um dia ouvi-o tratar por  Carlos alguém que tem outro nome, apenas por familiaridade, ou quem sabe, por gostar muito do nome. Ficou a ser, para mim, o Sr. Carlos, porque não? Afinal também gosto de baptizar as pessoas.


O Sr. Carlos gosta de falar com os passageiros da camioneta entre Lisboa e Carnaxide ou no percurso inverso. Aprecia ainda mais o diálogo com os motoristas a quem trata com respeito e admiração. Desses acredito que saiba até o nome verdadeiro. Um dia assisti a uma conversa com o Sr. Simão, o condutor. O homem desejou-lhe um feliz aniversário e obteve como resposta:

"Obrigado, Sr. Simão, muito obrigado. Na verdade eu só faço anos amanhã. Dizem que dá azar dar os parabéns adiantados mas eu não vejo as coisas dessa maneira. Afinal, se não me desse agora os parabéns não mos podia dar, pois amanhã não venho. E além de que isso são crendices. Ora quando uma pessoa deseja boa viagem a outra também é sempre antes e não há azar por causa disso, não é verdade, Sr. Simão? Por isso olhe muito obrigo pelos parabéns, fez muito bem."

E a partir daqui a conversa desenrolou-se à volta da temática dos santos e das procissões das paróquias que servem a freguesia de Carnaxide-Queijas. Foi um subir e descer de ruas e ruelas atrás dos variados andores, sempre culminando na expressão "e foi muito lindo, muito bonito". Até que o Sr. Carlos pergunta ao Sr. Simão, talvez um pouco perplexo com o seu silêncio, se era seu costume frequentar a Igreja. Ao que este responde que não, nem por isso. E vai o Sr. Carlos:
"Pois, então é como eu, Sr. Simão, eu também não ligo muito."

Eu, no meu lugar à janela, passei o resto da viagem lamentando não terem levado o sr. Carlos como braço direito do António Guterres, lá para q ONU, ou no mínimo para uma embaixada de um país qualquer, seria uma mais valia, certamente.  Sendo assim, foi uma brilhante carreira diplomática que se trocou por outra de curto percurso  entre uns simpáticos arrabaldes e o centro da capital portuguesa. É a vida, como diria o Senhor outro.

pescador

Bathing Man, Edvard Munch, 1918


fecho eclair
abrindo
sai
rio abaixo
o isco pendente
esperando passivo
pensando
gente

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um piano no peito


A strongwoman balances a piano and pianist on her chest 1920


um piano parado
no peito
temporário
estacionamento obrigatório
no vai-vem da respiração

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Aranha

Spiderwoman, Milo Manara/Marvel



quando os nervos
mais que fios
linhas
finos traços
são teias
de letras
novelo
de palavras
espécie de caldo
tornado
sopa de esperança
na captura
do poeta