sexta-feira, 28 de outubro de 2016

velhice



uma cobra
largando a carne
antes da pele
lagarto
lagarto
lagarto
que me abandonas

O Cavaleiro da Rosa




"O Cavaleiro da Rosa". Cartaz da produção de 2005 da Opera de Los Angeles 

o que vais fazer
com o tempo
que te resta
ficar quieta
feito estátua
esquina na testa
tábua de salvação
não é opção
tanto cão
tanto cão
pouco chão
pouco chão
comboio comichão
carinho atenção
merda roliça
atenção
e o relógio
num galope cabrão
ardendo em combustível
de contrafacção
carvão doce carvão
cada vez mais 
célere mais picante
uma rosa de presente
e não é para ti não
a outra é mais nova 
mais tesão e tu
que vais fazer
nesse tempo do final
picar o ponto
à entrada do dia
à saída do arraial
pouco importa
pena máxima
por pecado venial
o que vais fazer 
agora

 

domingo, 23 de outubro de 2016

MEET JOE BLACK







É noite. Um homem dorme num palacete. Começa a ouvir uma voz ainda em sonhos, um "sim" no escuro. Uma dor irradia pelo braço abaixo e acorda sobressaltado. Parece um sinal de enfarte do miocárdio. Um prenúncio de morte. E a voz continua a responder "sim"... qual será a pergunta? Ele tenta retomar o sono mas a voz não deixa: "sim".


Agora já é dia e ficamos a saber que o homem é Bill Parrish (Anthony Hopkins), um magnata de Nova York que está a dois dias de celebrar o seu 65º aniversário. Bill Parrish (existe aqui um trocadilho com perish que significa perecer), o nome resume tudo, não é?


A filha mais velha, Allison, uma tontinha adorável anda numa azáfama de preparativos para a grande festa perante a indiferença mal disfarçada do progenitor. O evento irá acontecer nos magníficos jardins do sumptuoso palacete. A história não tem grande acção, durante as suas 3 horas de duração, podia até ser teatro, mas os cenários são lindíssimos. Raras são as salas em que não há pelo menos uma grande obra de arte, um Rothko aqui, um Picasso acolá, e muitas outras cujos autores o meu olho pouco treinado não conseguiu descortinar.


Allison fervilha de emoção pela festa que quer seja um sucesso em homenagem ao seu pai mas fervilha ainda mais de amor por ele, uma adoração esmagadora que sabe não ser correspondida. Ele sente carinho pela sua filha mais velha mas não tem a mesma intensidade no sentimento que tem por exemplo pela sua filha mais nova, Susan, a sua preferida. Allison sente pela irmã um ciúme benigno, sem rivalidade, um ciúme resignado. É um bom papel secundário atribuído à competente Marcia Gay Harden. O marido desta, a cargo do grande Jeffrey Tambor, é Quince, um tontinho adorável e patusco que a adora de verdade.


Susan, protagonizada pela bela Claire Forlani, namora com Drew (Jake Weber, o marido da Patricia Arquette na Medium) que é o braço direito de Bill nos negócios da sua firma. Parece que é o arranjinho perfeito, não seria o que qualquer pai desejaria para sua filha?


Não porque Bill é tudo menos um homem vulgar, conhece a sua filha, adora-a com paixão e sente que não está apaixonada. Talvez nunca tenha estado nem saiba o que isso é. Diz-lhe ele isto, num dos diálogos essenciais no filme:


Bill:"There's not a once of excitement, not a whisper of a thrill. This relation has all the passion of a pair of tick mice. I want you to get swept away, I want you to levitate, I want you to sing with rapture and dance like a dervish."

Susan: " Oh, that's all?"

Bill: "Yes, be deliriously happy or at least have yourself open to be it."

Susan: "Ok"
O amor é paixão, conclui o pai.


Na cena seguinte Susan está numa cafetaria tomando o pequeno-almoço, junto ao Hospital onde trabalha e encontra um rapaz atraente e simpático que mete conversa com ela. Conversa vai, conversa vem, a atracção é óbvia (não fosse ele a cara chapada do Brad Pitt), o interesse é mútuo, a curiosidade intensa... A coisa promete. Despedem-se, cada qual segue a sua direcção. E quando ela desaparece do seu raio visual ele... spoiler alert, spoiler alert, spoiler alert... ah já toda a gente viu, afinal é um filme de 1998... ele é atropelado violentamente! The End? Como se estamos ainda nos primeiros vinte cinco minutos do filme?


Então que história vem a ser esta? Uma comédia romântica boy meets girl etc., etc. não será certamente, que os galãs não morrem assim...


Esta é uma história de fantasmas. Não como uma história de fantasmas normal. Não há um capitão-fantasma da Mrs. Muir, aqui há um fantasma-mor. Este não é um fantasma, é O Fantasma, a Grande Ceifeira, a Morte em carne e osso. Ou melhor dizendo O Morte, pois a marota vai aproveitar o corpinho jeitoso do rapaz da cafetaria, chamem-lhe parva.


O que se passou então com a Grande Certeza? Acontece que sentiu curiosidade pela vida. Ouviu as palavras de Bill, afinal andava mesmo a ronda-lo pois a sua hora aproxima-se, e gostou daquelas palavras que ele dedica à sua filha adorada exortando-a a experimentar a felicidade extrema. É exatamente isso que a Morte quer: a Paixão.


E isto lhe explica, em sua casa, assim que lhe aparece pela primeira vez. Escolheu Bill Parrish como seu cicerone, seu guia turístico numa espécie de férias terrenas para descobrir o que é isso de viver. Escolheu Bill porque o considera um homem honrado, um homem de bem e com ele firma um pacto. Em troca de orientação terrena dá-lhe tempo. Quanto tempo logo se verá. Bill vai acolher, então, o Grande Desconhecido no seu seio familiar, abrir-lhe as portas da sua casa, do seu trabalho, da sua vida.


O "sim" respondia à pergunta que Bill receava fazer e admitir: "vou morrer?"


Bill apresenta o novo "amigo" à família como Joe Black e Susan reconhece-o da cafetaria, pensa ela que é o mesmo rapaz. Ele está diferente, comporta-se como um estranho, é amigo do pai afinal e ela está confusa. Mas a curiosidade continua lá. A curiosidade que rapidamente se torna contagiosa. E Joe está a adorar aprender coisas novas.


Mais adiante vemos Susan acabar a relação com Drew, que se começa por revelar um fuinha ambicioso, e se vai transformar no vilão da trama numa história de traição nos negócios que para aqui agora é secundária mas permite os momentos mais humorísticos e de descontracção do filme.


Assim, podemos ser as testemunhas silenciosas que assistem no sofá aos momentos em que Joe e Susan se apaixonam um pelo outro. E aqui está a singularidade do filme. Nunca antes se tinha visto tal situação, é quase como se fosse filmado em câmara lenta, mas não é. São os actores que no demonstram num trabalho de representação excepcional tanto de Brad como de Claire. São totalmente credíveis. E não esquecer que Joe não só se está a apaixonar por uma mulher belíssima mas se sente daquela forma pela primeira vez na sua eterna existência. É uma situação completamente excepcional.















Dizem as más línguas que Brad sofre neste filme de over-acting mas eu não podia discordar mais.


O realizador, Martin Brest, capta aqui nestas cenas entre Brad/ Claire os misteriosos momentos iniciais que estão na origem, muitas vezes, numa história de vida que duas pessoas constroem em comum. Ao mesmo tempo induz-nos algumas interrogações que provavelmente vamos fazendo ao longo da vida, de tempos a tempos:


Por quem nos apaixonamos quando nos apaixonamos? O que nos faz apaixonar por uma pessoa em particular, é o corpo, é a alma, o que é afinal? Como se cria um laço tão forte, tão importante com uma pessoa mesmo sabendo tão pouco sobre ela? Como se estabelece essa confiança, esse instinto, essa certeza? Naqueles momentos iniciais em que se conhece alguém o que faz despoletar o sentimento?

Que relâmpago é esse que faz a Morte emocionar-se até ás lágrimas no seu primeiro beijo?




Bill começa a ver o que se está a passar com a filha, finalmente ela passa por tudo o que o pai sempre desejou para ela, mas bolas, logo com a Morte? Que pontaria!


Bill confronta Joe, não percebe o que anda ele a fazer a brincar às casinhas com Susan, aos médicos, melhor dizendo... E Joe responde-lhe com as suas próprias palavras: A whisper of a thrill...
Bill enfurece-se, acusa-o de violar as leis do Universo. Joe está a rebelar-se pois então, está farto da não-vida. Está a gostar de viver, de amar, da amada, quer levá-la com ele para a eternidade!


Não conseguindo demover Joe, tenta demover a filha. Esta irrita-se, então ele dá-lhe um optimo conselho e quando ela o segue afinal não está certo porque o pretendente é errado, até parecem ciúmes doentios. E assim se alcança um impasse.




Este é um filme sobre o amor enquanto paixão. Amor correspondido entre um pai e uma filha. Amor não correspondido entre uma filha e um pai, pelo menos não correspondido com o mesmo grau de intensidade. Amor entre uma mulher e o homem/fantasma.

Meet Joe Black é um remake de um filme "Death takes a Holiday" de 1934, "Uma Sombra que Passa" em português, e cujo argumento foi baseado na peça de teatro "La Morte Va in Vacanza" do italiano Alberto Casella (eu não disse que podia ser teatro?)






Chega a noite da festa. Joe volta a dizer ao Bill que irá levar Susan, afinal ela quer ir e tal, ele não quer deixa-la e tal, o costume...
Bill sente que tem de intervir se quiser salvar a filha. Como pode ela amá-lo se não sabe quem é ele de facto, nem sabendo para onde vai?


Esta é cena é quase um duelo homem-Morte. Bill é um homem eloquente. E sabe que a Morte não é desprovida de razão. lança a cartada final: a Ética. A Ética versus Eros, eis o batalha final.
O primeiro objectivo do amor é não ferir a pessoa amada. Eis uma lição que muitos humanos têm toda uma vida para aprender e não conseguem.


Joe vai ter com Susan e esta última cena entre os dois é uma despedida em que ele se mostra, deixa que ela o veja. Ela percebe que ele não é o rapaz da cafetaria. Será que ela percebe que ele não é deste mundo? Não há uma resposta clara mas quanto a mim ela acaba por perceber tudo, depois quando o pai dela se despede e mais ainda quando os vê afastar os dois juntos.

O que importa na última cena entre Joe e Susan é que ela percebe que embora não sabendo quem é ele, de onde veio, conhece-o e ama-o como o vê. E a Morte conhece por fim o verdadeiro amor.






Bill e Joe preparam-se para deixar a Terra, juntos. Últimas palavras:


Bill: it's hard to let go, isn't it?


Joe: Yes it is.


Bill: That's life, what can I say to you?


Should I be afraid?


Joe: Not a man like you, Bill.



Apetece dizer: pode ser o princípio de uma bela amizade...


Mas ainda não é o fim. Não vou contar a última cena, é uma cena importante mas deixo esta última surpresa para quem quiser ainda assim ver o filme. Eu agora quero encontrar o filme original, do Mitchell Leisen.



Este Meet Joe Black não foi um êxito e quanto a mim uma das causas foram os cartazes. Que coisa mais fracota. O filme tem imagens tão bonitas, é visualmente impressionante e mesmo assim tive imensa dificuldade em escolher boas fotos para ilustrar este texto, não sei o que de errado se passou aqui. Depois há quem tenha criticado o cabelo do Brad Pitt, pelo amor de Deus, não há limites para a dor de cotovelo!











E por fim, falta referir que nos créditos finais se ouve a versão do What a Wonderful Life do Israel Kamakawiwo'ole com o seu ukelele. Foi a primeira vez que ouvi esta música, há 16 anos. Um bónus.









segunda-feira, 17 de outubro de 2016

colisão



Não orbitarás
em torno do meu eixo,
não te deixarás
cair em rota de colisão.
Em caso de transgressão
haverá lugar ao esquecimento
no final da última galáxia.