sábado, 24 de setembro de 2016

Testemunhas



Bates à porta
pela minha salvação,
não, pela tua,
que tens contas a dar,
bates-me à porta por ti.
Sei porque namorei o belo filho
doutra testemunha,
serva desse mesmo Deus,
pelos dois milagres adquiridos,
não sabemos o maior,
se a beleza do rapaz
se o próprio nascimento
na altura confundido
com a menopausa,
e tinha de apresentar cotas
de almas resgatadas à perdição
e ao ateísmo, para ganhar o céu.
Bates, para me ajudar,
não, para te ajudares,
bates-me à porta
para que eu te salve um bocadinho
da morte, a prestações,
um paninho quente
no rol de boas acções,
o enxoval da eternidade.
Em boa verdade, com fé ou sem ela,
a beleza desse filho
nem era assim tão apocalíptica
nem inocente.
Em boa verdade, ambas sofremos
a mesma farisaica aparição.
Mas quem diria que Jeová
por vezes está
onde nem sequer existe?

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Deus mãe

"Marilyn puntos rojos" by Antonio de Felipe


Vinha atravessando a praça do Marquês em passo acelerado quando a vi aproximar. Loira, bem penteada, com os lábios bem delineados a vermelho, elegantemente vestida, pareceu-me uma Marilyn de fato à executiva. Perguntou-me se me podia fazer uma pergunta. Claro, pensei logo que vinha tresmalhada dos magotes de turistas do Chiado e estava perdida. Se eu conhecia, da Bíblia, Deus-mãe. Se já tinha ouvido falar de Deus-mãe. E repetia Deus-mãe. Sim, disse-lhe, Deus-mãe, Deus-pai e Deus-filho, a família completa, mentindo a cem à hora. A pressa, essa, era real. E tive pena de não ter ficado à conversa, a tentar perceber se Deus-mãe constava mesmo da Bíblia ou seria talvez um erro de tradução numa dessas passagens de língua em língua que o livro teve de sofrer. Quando contei o episódio lembraram-me que de facto eu já ouvira falar de Deus-mãe. Afinal outras estrangeiras, dessa vez orientais, já haviam deambulado pela faculdade de letras tentando evangelizar estudantes para o Deus feminino. Fiquei mais curiosa ainda. Deus-mãe. Será o deus da beleza e da moda? O deus da graça e da elegância, da doçura e da simpatia? Quem serão os seus discípulos? Jovens musculados, impecavelmente escanhoados de tronco nu? Odaliscas de longas pernas bem torneadas? E as orações, como serão as orações? Preces em favor do calor humano, do amor entre os géneros, ou dentro dos géneros, do amor apenas enquanto tal...
E quantos e quantas se conseguirão abster de rezar, depois de ajoelhar?

sábado, 17 de setembro de 2016

a vidente infeliz

Desde tenra idade que tenho fortes pressentimentos. Premonições e certezas saltam-me do peito, quase acompanhando a regularidade da respiração. Presságios invadem-me os sonhos e acordam-me a meio da noite, em urgência. Infelizmente, estão sempre errados. Nunca nenhum se veio a concretizar.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

quando a máquina de enxotar pássaros...

quando a máquina de enxotar pássaros avaria... passamos a noite a ouvir "tiros". Como um relógio que marca a hora de quarenta em quarenta segundos...

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

rejeição

de ti o corpo
cálice afastado

Cornupópia




Mais uma viagem (Lisboa- Beira Baixa), mais uma compilação, outra uma sessão  de corte e colagem. Continua a ser malta portuguesa a cantar e assim sendo é só amor e melancolia aos molhos, um dó.
O título (Cornupópia) foi inventado e gentilmente cedido pelo Nuno Miguel Lopes.

1-VideoMaria, GNR
2- 40º à Sombra, Radar Kadafi
3- Se Te Amo, Quinta do Bill
4- Maria Albertina, António Variações (versão Humanos)
5- Com um brilhozinho nos olhos, Sérgio Godinho
6- Isto Anda Tudo Ligado, Sérgio Godinho (versão do CD Irmão do Meio)
7- Zap Canal, Três Tristes Tigres
8- Namoro, Fausto (versão Teresa Salgueiro)
9- Atrás dos Tempos (versão Né Ladeiras com Jorge Palma)
10- Problema de Expressão, Clã
11- Bem Bom, Doce (versão Rui Reininho)
12- Solta-se o Beijo (Ala dos Namorados)
13- Chuva Dissolvente, Xutos e Pontapés
14- Eu estou aqui, Pedro Abrunhosa
15- Cavalo à Solta, Fernando Tordo
16- Saudade, Trovante
17- 125 Azul, Trovante
18- Saiu Decidida para a Rua, Rui Veloso (versão Sara Tavares)


Cornupópia (poema compilação II)

aquela rapariga
eu já nem sei o que fazer
que dizer
confesso às paredes de quem gosto
e é tão difícil dizer amor
é bem melhor dizê-lo a cantar
quem canta sempre se levanta
calados é que podemos cair
ah se não tenho a vergonha de o dizer
Maria Albertina deixa que te diga...
hei-de ouvir o teu parecer
hás-de me dizer
às duas por três
quem sabe onde isto irá parar
eu mandei-lhe essa carta
(o que é que foi que ele disse?)
e ela disse que não
chegou hoje no correio a notícia
por ti renego
por ti aceito
atirem-me água fria!
de Lisboa vou fugir
não sei mesmo se Lisboa
não partiu para parte incerta
o corpo em câmara lenta
e eu estou aqui
tantos anos tantas noites
sem nunca sentir a paixão
e o que foi feito de mim?
e o que foi feito de ti?