segunda-feira, 29 de setembro de 2014

POÉMICA





Poémica será o meu próximo livro de poemas. Nele constarão os poemas escritos por mim em 2014 que têm vindo a ser publicados neste blogue.

Poémica é um estado de alma, a manifestação de uma ausência. Uma forma, de sentir, de estar, que consiste na confluência de dois opostos contraditórios. Por um lado um excesso que transborda e por outro uma carência, uma privação e uma busca sem solução. Podemos, se quisermos, fazer um paralelismo com os estados anémicos do sangue em que existe um aumento da fase líquida em  detrimento de um certo elemento celular, os glóbulos vermelhos. Estar poémica é sentir uma falta que leva a uma sobrecarga de sentido contrário e que pode vir à superfície sob a forma de poemas. Escrever não é, nem a doença nem a cura, mas um meio que permite a observação do Estado Poémico e de um certo tipo de sinais: os poemas.

domingo, 28 de setembro de 2014

O Pé




Do pé à mão
é funda a distância,
da mão à boca
é pouca.

Trocava de boa fé
a mágoa pela mão,
a boca pelo pé.

Nem os dedos
vêem o ventre
nem o coração,
quando não quer,
sente.

Se a última palavra
foi mentira
o que fica no fim
é a ternura
pela frenação,
a pantomina,
a  fractura.

sábado, 27 de setembro de 2014

touro




A raiva a estalar no peito
como um touro
de olhos pisados
que não se deixa montar.
As costelas
são as grades
que não querem
(não quebram)
conter o coice.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

o obituarista




Escreve
na montra
a morte.
Faz desfilar
os nomes
em marcha
lenta
pelas páginas.
Quem lê
procura
não encontrar
o seu epitáfio.

conspiração de palavras





Olho a página em branco. Não posso deixar passar as palavras. Tapo a boca com determinação e força. Mas as mãos são pequenas e, embora a boca não seja grande, as palavras esgueiram-se como enguias escorregadias, pelos espaços entre os dedos.  Caiem no branco da folha criando uma mancha de tinta que tento não decifrar. Conspiram contra mim. Têm uma mensagem e querem alcançar o seu destino. Baniram do seu grupo a palavra "orgulho" e o seu líder parece ser a "determinação". 
Utilizo agora o meu discurso racional para as convencer a voltar atrás. Não posso deixar passar as palavras.
Não ouvem. Não querem saber. Só pensam na viagem. Têm pressa. Têm muita pressa. Não vão esperar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

zumbido alucinador




O silêncio
atacou-me,
torceu-me um braço
atrás das costas
como uma professora
estúpida
forçando-me a sair da sala.


Fiquei suspensa na ameaça
como uma criança
contrariada e obediente.


Vejo essa afiada  indiferença
que ainda me há-de furar
os olhos.

O silêncio,
esse zumbido
alucinador.



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

UM POEMA DE EUGÉNIO DE CASTRO

CHUVA DE SETEMBRO


Chuvinha miúda... chove, chove,
Molhando a eira, inchando a uva...
Mãos d'anjo fazem rendas d'água,
Prendem-me aqui grades de chuva...


Chuvinha miúda...chove, chove
Nos pinheirais, dentro de mim...
Lembra-me agora aquela tarde
Em que também chovia assim...


Quanto chorámos nessa hora,
Que já de nós tão longe vai!
Chuvinha miúda... chove... chove...
Sonhos d'amor, chorai, chorai...

UMA MENTIRA MIL VEZES REPETIDA





"Qual quer que venha a ser o resultado desta minha ociosa e diletante tentativa para alcançar o sucesso, ele será tanto ou mais duradouro, disso estou convencido, do que aquele que obteria se me entregasse ao labor insano e pouco saudável de me privar das tardes de sol para ficar fechado em casa a escrever um livro de verdade. Com alguma sorte, aliás, serei um dia destes abordado por um dos jornalistas que, não tarda, estarão investigando o misterioso e instigante romance de Oscar Schidinski e, então, poderei até dizer que tive nas mãos um exemplar da notável obra, que o li por empréstimo e que estou na posição de assegurar, com absoluta certeza, a genialidade e a singularidade do livro do mestre húngaro. Com alguma sorte, repito, serei convidado para os  telejornais e programas de variedades, para debates e conferências, para tertúlias e magazines culturais, e poderei obter, deste modo, mais atenção do que aquela que conseguem alguns desses patetas  que se dedicam a  a escrever livros de grande profundidade existencial e originalidade estética, bestialmente aborrecidos e aos quais ninguém no seu perfeito juízo de dica mais do que uma devoção fingida e circunstacial."

Temos aqui o resumo da história do livro. Um homem sonha ser conhecido, deseja o reconhecimento público. Não está para se aborrecer a escrever livros. Tem uma ideia muito mais original. Inventa um romance. Literalmente. Sem o escrever. Ele elabora o objecto propriamente dito, com capa, com letras. E depois passa os dias a viajar pelos transportes públicos na zona do grande Porto a divulgar a obra, como quem não quer a coisa, aos outros passageiros. Lança o isco para um grande mistério. O grande enigma desta monumental obra chamada "Cidade Conquistada" do tal Óscar Schidinski. 
Tenta também criar uma mistério sobre a origem do próprio autor. Conta excertos do livro imaginário durante os vários itinerários que faz a cada dia. As histórias nunca são iguais pois ele vai inventando à medida que as conta. Sempre na esperança de se tornar famoso através da farsa. Através da falsa obra prima. Da mentira mil vezes repetida que não se tornará nunca verdade mas em algo muito mais proveitoso: uma mentira apetecível.


Enquanto esta personagem sedenta de fama vai contando as suas peripécias no autocarro o autor propriamente dito, o Marmelo, aproveita a dica e escreve o tal livro imaginário, a Cidade Conquistada, fazendo as vezes do escritor húngaro. Podemos conhecer assim o livro falso, tornado verdadeiro para nosso gozo, que conta a história de outro homem, também ele escritor mas desta vez um mulato do Belize chamado Marcos Sacatepequez.


Marmelo aproveita ainda para contar histórias do próprio Marcos Sacatepequez, esse escritor ficcionado que pode muito bem ter sido inspirado na figura de outro escritor do mesmo nome mas neste caso um poeta hondurenho, como por exemplo o caso do famoso Homem-zebra.


O livro é uma corrida. Uma prova disputada entre o escritor. Manuel Jorge Marmelo, e a personagem- narrador, que parece uma outra versão de si próprio, pelo reconhecimento público, a metafórica cidade da fama. Um conta uma história, escreve um livro de verdade. O outro inventa uma mentira e repete-a até à exaustão. Quem ganha? Parece-me que a resposta é clara.


"Uma Mentira Mil Vezes Repetida" foi a obra vencedora do Prémio Correntes d'Escritas 2014.
É um livro muito bem escrito e competente, daqueles que ganham prémios e que permitem aos escritores o desafogo para inventar outros livros verdadeiramente memoráveis como o que vem a seguir e sobre o qual já falei: "O Tempo Morto É Um Bom Lugar". Abençoado livro mais o respectivo prémio. Venham os próximos. Que sejam muitos.













Perdão

Pedem-me perdão. Surpreendo-me. Abrevio a surpresa pois reparo que o perdão está na moda. De repente tornou-se fácil. Libertador. Para quem pede. Para quem dá. Houve tempos em que pensei que o perdão fugia às capacidades humanas. Por isso o Homem sentiu a necessidade de criar Deus. Para poder ser perdoado. Para poder perdoar através Dele. Talvez me tenha enganado. Afinal perdoar é simples. Acessível. Apenas uma palavra. O problema é a memória.

um rio grosso




Às vezes vejo, de passagem, um rio grosso
de águas correndo livres
e admiro-me daquela força bravia
que por momentos fugidios parece
indestrutível
e eterna.


Um dia vi, também de passagem,
o leito de um rio morto,
com o seu esqueleto exposto
de pedras e paus secos ao sol.
Para onde vai aquela força líquida,
indomável,
porque desaparece?

Como nasce a água?

Um elemento inorgânico,
sem gâmetas de pai e mãe,
que se junta gota a gota
na terra, vindo de cima e de baixo,
de parte incerta e recôndita
para formar um caudal a princípio pequeno
e vai crescendo a pouco e pouco,
imperceptível,
até formar um colosso de água.

O que significa nascer e morrer
quando se é apenas um movimento?

domingo, 21 de setembro de 2014

Eu era o erro




Eu era o erro

a falha

a fractura

 o declive

o solavanco

o coice

a queda

o quebra-mar

o desnível

a precipitação

a gravilha na engrenagem

o gume

a batida prematura

o arrepio

a ravina

o alvoroço

a cavilha

o caroço

a contusão

a equimose

o espinho

o galope

o grito

o revés

o desalinho

o pontapé

a manilha

o truque


















quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Mulher-árvore





Nasceu no rosto
uma árvore
raízes
em redor dos olhos
os cabelos vorazes
como folhas em fúria.
Do entrelaçar
das sobrancelhas
caem rugas
de roer.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

neutrões



tudo parece igual
em redor
mas o interior
está 
inequivocamente
quebrado.

porteira



Escrevia recados
como se fossem poemas.
Apontava-os na memória,
num guardanapo.
Repetia as frases em alta voz.
Guardava o vestíbulo do prédio
onde havia uma secretária
sem cadeira.
Eram recados.
de alguém
para outrem.
Brincava com as palavras
que não eram suas,
dava-lhes lustro.
Jerricã.
Caxemira.
Mensalidade.
Tinha decorado
os mais belos recados.
dos outros
como se fossem seus.
Blusa
Convocatória.
Amanhã chego
meia-hora
mais tarde.
Treinava
a poesia.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

UM POEMA DE TONY TCHEKA




IMERECIMENTO

Adormeço
Na luz
dos teus olhos
vejo Veneza
que não conheço


Ondulo
num círculo
de ondas
de levitação


Confesso:
não mereço
a Ternura
da gôndula
acariciando
as águas
anda a onda

a leap of faith






Por dois segundos
sem rede
sem olhar o abismo
em baixo
suspensa no ar
por dois segundos
de brilho absoluto
só asas.
Por dois segundos
de fé infinita
e fugaz,
maior que a queda
maior que o medo
só aquela força
que sustenta
um corpo levitando
no vazio.
Por dois segundos
de mãos
inquietas,
ingurgitadas
de esperança
segura.
Duas mãos ao alto,
rendidas,
que recusam
a rendição.




sábado, 13 de setembro de 2014

condenação




Ser fraco
o poema
não é grave.
Já muitos poetas do passado
trabalharam para nós.
No que depender da poesia
estamos salvos.
O que nos condena
é a sutura demasiado
laça.
O interior do corpo
passa a esgoto
a céu aberto.
O ponto desfeito
abre a porta
à morte.
E toda a gente sabe
que a morte
vem a convite
com um sorriso
escancarado.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

De vidro





Existes
porque te criei
como quem sopra
o vidro
pelo fogo.
Na minha marma
dei-te forma
e voz.
Um perfume.

De tanto te chamar
fiz-te um nome,
uma transparência
um mar encrespado
uma lura cálida.
Implícita.

Depois a pressa,
a falta de prática 
e de técnica
tornaram o vidro fosco,
riscado.
Pensei que fosse fácil
quebrá-lo
desfazer o feitiço.
Mas a língua enrola-se
no momento
da palavra mágica,
o nariz espirra
espalhando o pó
que reverte o tempo.

O vidro,
agora opaco,
fumado,
virou muro
à prova de bala,
plano
furado.









quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Livros




Se as livrarias fossem padarias
os livros seriam 
papo-secos
carcaças
cacetes
caracóis
escritos em
línguas da sogra
compridas 
a secar na montra.

O 11 DE SETEMBRO




O Homem-pássaro

Daquele dia em que o terror foi rei o que ficou retido para sempre na minha memória foi o Homem-pássaro.
A imprensa americana chamou-lhe “the falling man”.
A fotografia impressiona. A posição do corpo é vertical, de cabeça para baixo. As pernas estão flectidas, uma mais que a outra. Uma das torres gémeas ocupa toda a imagem, em fundo. O homem apresenta-se estranhamente equilibrado na queda. Não parece desamparado. Quase que podia julgar-se que ele dirige a descida. Quase que parece um voo. Um voo picado para baixo de um Homem-pássaro.
A foto chocou o mundo e incendiou paixões. Gerou protestos de muitas vozes. Ninguém queria ver aquela foto escarrapachada nos jornais. Dizia-se que retirava privacidade ao homem que durante a viagem de dez segundos vivia os seus últimos momentos. Para além disso magoava.
Depois vieram as tentativas de identificação da pessoa. Por cada hipótese adiantada surgiram rejeições. Ninguém queria assumir o Homem-pássaro. Ele envergonhava as viúvas e assustava os órfãos. Como se aquela foto mostrasse uma viagem voluntária para morte.
O Homem-pássaro não se matou. Aquele homem decidiu ser pássaro nos últimos dez segundos que lhe restavam. Já se tinha despedido dos entes amados. Já tinha rezado ao seu Deus. Já se tinha despedido da sua condição humana. Só não conseguia ainda despedir-se da vida. Queria mais. E só havia uma maneira de conseguir prolongar o tempo que lhe restava: transformando-se em pássaro. Durante a viagem para baixo pode sentir o vento frio na cara. Pode ver o céu radioso. Pode respirar.
Por mais dez segundos.
A imagem do fotógrafo não é um testemunho do desejo de morte. Ou da fragilidade do ser humano perante a tragédia. É a prova da capacidade de abraçar a vida. Tão esmagadora que pode transformar um homem em pássaro e fazê-lo voar. Nem que seja por dez preciosos e eternos segundos.
Paz à sua alma.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Mal Nosso




Mal nosso de cada dia,
o que me dás hoje?
Um veneno coagulado
nas veias
monótono, paralisante,
poço sem água,
urtigas estagnadas,
fundo.
 
Uma planta carnívora
de lâminas na língua
numa incandescência 
encarniçada
de viver à mingua
na sombra 
desvalida e voraz.

Mal nosso de cada dia
não conheces 
nem descanso
nem perdão.
Para dar ou receber.
Mal nosso, não te quero,
vou virar-te a cara
e esquecer o teu nome,
seja feita a tua
vontade.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O juiz da partida




Não soprei o apito
de ânimo leve
nem no início
nem no final da partida.
De todas as vezes
que me fiz ouvir
durante o jogo
usei de abnegação
e do esquecimento.
Não pensei no meu prejuízo
nem na dignidade de minha mãe.
Acabei em último
de acordo com
as expectativas dos espectadores.
E no balneário, obediente
tomei o duche frio e justo.
Saúdo agora
o inexorável vencedor.

Do corvo ao melro



Do corvo ao melro
vai um bico amarelo
inteiro
de indiferença.

envelhecer

O espelho já não é um espelho.
É uma âncora que afunda os olhos.
Vamos cegando aos poucos
que é a única maneira de enganar a morte.

férias (II)

O tio
enganando
os médicos
e a morte
fugiu do hospital.
Quem não saiba
do internamento
ao vê-lo com as ovelhas
acredita que está
completamente
curado.

férias

O avô
levou
um fato
completo
caso fosse
morrer
nas férias.

insectos



pequenos insectos
de sangue quente
de pernas longas
de apertar pescoços
um guincho como voz
e logo se agacham
à galocha
obedientes
obsidiadas
pelo aveludado
de decibéis
de uma ordem
cega de comando.


A voz para calar




Hei-de saber criar
asas na voz
para não voar
que a voz também se usa
para calar.

O TEMPO MORTO É UM BOM LUGAR


" Escrever é só um artifício para chorar diante de todos sem que ninguém veja (...)"

Acaba assim este romance de Manuel Jorge Marmelo. Se não nos desse mais do que esta frase final, o livro já valeria a pena.
Mas este livro dá-nos muito mais. Desde o primeiro parágrafo até ao último agarra-nos com uma escrita límpida, lúcida e ao mesmo tempo poética.
Tive vontade de conhecer esta história depois de ler uma entrevista ao autor num jornal diário. Fiquei a saber que é a história de um jornalista desempregado que é preso e descobre que a prisão é o local ideal para escrever um livro.
 Já fantasiei muito com essa ideia. Sempre que vejo alguém sair da prisão com ar mais magro e mais saudável depois de uma curta estadia sinto uma certa inveja: ah como seria confortável viver sem preocupações durante 6 meses e não pensar em mais responsabilidade que encher meia dúzia de páginas por dia...
Pelos vistos Marmelo também deve ter pensado coisa semelhante.  Não podendo recolher à prisão voluntariamente pensou em criar uma personagem que o conseguisse. E se bem pensou melhor o fez.

Herculano Vermelho, jornalista desempregado encontra na reclusão a liberdade perdida inerente a esse estigma. Mas na verdade, a liberdade é uma miragem. Não há liberdade sem amarras. E o tempo morto da prisão acaba por ser o melhor lugar para quem precisa de um espaço de recolhimento para a ficção ou a poesia. Não é por acaso que Vermelho é um vencido da poesia, um poeta desistente. 

Mas o livro não é só isso. Tem histórias dentro de histórias, tem personagens que são pessoas dentro de pessoas, tem mistério, tem suspense e tem um retrato da actualidade urbana portuguesa.

Há uma parte do livro em que a voz narrativa é a de uma personagem feminina, Soraya Évora, a vítima cujo o assassinato é imputado ao jornalista.
Pois aqui Marmelo é mulher. Não é para qualquer um.
Para mim este é o livro mais importante de 2014. 
Venha mais obra.

domingo, 7 de setembro de 2014

A memória é uma panela


A memória é uma panela,
coze a realidade.
O que era fresco e sadio
torna-se desnaturado.
Na tentativa de cristalização
surge a mudança de estado,
um fantasma que se move
no sentido da fuga impossível.
A memória  é lenha e é fogão
onde arde e se destrói
o que um dia foi a vida.

Eu, Bidú







Lembro-me sempre com saudades das minhas férias no Camping da Praia Verde. Eram várias caravanas e tendas de membros da mesma família alargada, cheia de crianças e adolescentes que faziam daquelas semanas as melhores do Verão. Até os cães tinham direito ao seu lugar no nosso acampamento de índios, como costumava chamar ao conjunto de atrelados e afins dispostos em circulo. Era um mundo encantado, fora do mundo. 
Lembro-me muitas vezes do cão da minha prima Patrícia, o Bidú. Era um cão divertido, jovem e meio estouvado. Todos os dias de manhã a primeira pessoa a acordar e sair da tenda dava com um presente do Bidú: um sapato, uma toalha, um alguidar, enfim, algo que o Bidú ia "caçar" e depois trazia aos seus donos com ar de triunfo a abanar a cauda. Um dia demos com ele com um enorme bacalhau seco na boca todo contente como quem nos oferecia o melhor tesouro do mundo. Sempre com aquela generosidade que só os cães têm para com os humanos. E nós horrorizados.

Às vezes sou eu o Bidú, de bacalhau na boca, a abanar a cauda de alegria pelo troféu que vou entregar a quem admiro. Tendo no entanto esta consciência plena da situação pode-se dizer que esta é uma imagem de humildade, ou se quisermos ser mais rigorosos, de humilhação. Mas uma pessoa não é um cão. Toda a humildade muito prolongada no tempo ameaça a dignidade.
Um cão pode dar-nos lições preciosas.
A primeira de todas: nunca seremos cães. Poisemos então o bacalhau.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

talvez uma despedida

uma colecção de palavras
pode ser uma coisa boa e aprazível
mas não chega a dar uma lição
porque é o corpo que percebe
que recebe
que entende e para isso
é preciso
espinhos na carne
e talvez um beijo
talvez uma prece
de dedos na pele
talvez uma despedida