quinta-feira, 29 de maio de 2014

Fora de época




Está frio, caralho!
Tem cuidado poeta
Na rua usa agasalho
Delicado anacoreta.

Leva um bom nagalho
Por cima dessa jaqueta
O Inverno é uma treta
Põe-te mas é ao borralho!

Mais treta é o Inverno
Se já devia ser Verão
Por pouco não hiberno
Veste o casaco, cabrão.

Assoa-me esse nariz
Esse pingo, esse coalho
Faz fugir bela actriz
O amor dá trabalho.

 Não há poema que valha
Ao frio que vem aos dedos
O amor é uma navalha
Corta a direito nos medos.

Ó poeta, o tempo é feio
Mesmo tomando atalho
Põe, evita bloqueio
Casaco grosso, caralho!

TRAPÉZIO


Aqui no trapézio, de pernas para o ar, vejo a vida diferente. As cabeças lá em baixo seguramente sentadas nas cadeiras maciças. O silêncio por momentos é um cristal tão leve que consigo ouvir pensamentos. Imaginam-me ao avesso do que sou.
Aqui no trapézio, quando salto, a tua mão constante dá-me as asas que fazem planar e anular o risco da ausência de rede.
Vejo pequenas esferas perto do chão que parecem suspensas e trémulas. Arrepiadas. Enquanto isso eu voo para os teus braços de aço e de certeza tão doce. E sorrio. Para os que me vêem de baixo para cima sem perceberem que sou eu que estou na posição natural.
Olham para os nós que fazemos a quatro mãos e que sustentam duas vidas feitas do lado de cá.
Aqui no trapézio vivo o sonho diariamente. Acordada. Em plena acção. E os que vejo, diferentes de mim, apreciando a minha extravagância, não entendem.
Oiço ainda o rugido do leão cansado e o choro do palhaço vencido enquanto me lanço uma vez mais ao teu encontro num espaço suspenso, concretizado com músculos.
O espanto esboça uma exclamação admirada. Sorrio uma vez mais.
A vida aqui no trapézio, de pernas para o ar, é diferente. Estou segura voando constantemente para o refúgio do corpo do meu amor. Que me acolhe em cada salto. Sem rede e sem risco. Ao contrário dos normais lá na terra.
 Mal oiço os aplausos ofereço um sorriso final.

TEATRO DE SOMBRAS





Chove lá fora, oiço uma música triste na rádio enquanto espero por ti. Vens tarde mas nada vou dizer. Nem quando tentares articular as desculpas habituais. Calarei os teus lábios com beijos. Não me olhas de frente. Para ti, agora que só nela pensas, eu sou uma dançarina do teatro de sombras chinesas. Uma presença para lá do pano, na escuridão. Um corpo mal iluminado, oculto num plano secundário.
Chove sempre e não oiço os teus passos entrando em casa. Deitei-me para que te seja leve a cama. O escuro é teu cúmplice. Tal como as mãos, os abraços que afagam e confortam recebendo os teus queixumes.
Choras baixinho. Engulo as tuas lágrimas e espero. Por trás do manto que recebe uma luz suave uma silhueta permanece indefinida, dançando lentamente. O som é um lamento compassado e complacente da voz de uma esposa paciente.
Serei a tua âncora, o teu esconderijo, a réstia de força após a luta sem tréguas.
E quando ela desaparecer eu estarei cá. Por trás da cortina, feita sombra chinesa.
Espero um tempo sem fim.
Chegarás numa tarde pardacenta. Eu um fumo desvanecido.
Regressarás vencido pelas saudades de quem fui e farás desaparecer o pano com um gesto forte. A luz do sol entrará em mim e poderás olhar-me nos olhos.
Chove dolorosamente. Esperarei, nas sombras, até ao fim.

MIND THE GAP







Ainda lhe oferecera um sorriso antes de sair e bater com a porta. Tentava agora decifrar esse movimento de lábios. Demasiado rasgado? Trémulo? Do que tinha certeza era das mãos ansiosas na véspera, antes de subir para se deitar quando viera despedir-se dela à cozinha enquanto acabava de retirar os bolos do forno. Reparara-lhe no afagar das mãos, uma contra a outra em movimentos circulares como se tentasse matar um frio que teimava em atacar os ossos. Falava num tom suave. Demasiado doce? Naquele momento não pensara nisso. Apenas recebia a voz como tudo o que vinha dele. Com assombro. Por isso por mais que tentasse descortinar um pormenor, um prenúncio do que estaria para vir, era em vão. Nada do que acontecia antes se podia relacionar sequer de relance com o que se passaria depois. Como se houvesse um degrau no tempo a separar o passado do presente, o antes e o depois. Como se as duas realidades estivessem desalinhadas no espaço, presas em dois compartimentos contíguos mas independentes.
Quando subiu ao seu encontro, ele ainda era o mesmo de sempre. O mesmo que havia conhecido aos dezassete anos no liceu. Apenas disse que precisava de ir ao café. Os motivos eram fúteis mas verosímeis, ela nada havia contraposto.
Dormia um sono suave quando ele retornou ao quarto e penetrou no leito tentando continuar a viagem por ela fora. Foi com surpresa e depois com espanto e logo de seguida com terror que verificou que ele já não era ele. Quem seria esse outro tão pleno de violência e de esquecimento de si e dos dois? Atacando-a sem remorsos nem piedade. Sem motivos. Tentou a defesa mas as perguntas não lhe deram descanso ao espírito para investir em estratégias corporais que lhe permitissem um alívio, uma hipótese de alcançar a fuga. E sucumbiu com horror à investida, desistindo de retaliar, tentando apenas encolher-se o mais possível, tentando escapar para dentro de si mesma.
Não tinha ideia do final. Apenas se lembrava de sentir que estaria há horas deitada no chão. Em silêncio. Recordou o sorriso que lhe enviara ao bater com a porta antes de ter saído para o café e ela ter adormecido sem suspeitas ou ansiedades.
Sabia que o momento em que a sua vida tinha deixado de ser o que era para passar a ser o estava sendo seria o instante desse levantar de beiços ao sair pela porta do quarto. No aferrolhar da porta terminara uma sucessão de acontecimentos e após o intervalo do café viria iniciar-se outra, que a esta seria totalmente estranha.
Ela não testemunhara esse começo de segunda parte, esse reabrir da mesma porta para uma nova realidade, pois dormia e visitava os sonhos da rotina regenerativa normal de uma vida comum. Um sono ligeiro. E logo a vigília a impor-se pelo repouso adentro, rasgando imaginações, utopias e devaneios reconfortantes. Para lhe mostrar que vida era afinal mais delirante que o mais desconcertante pesadelo. Quando se deu conta já estava acordada nesse outro cenário, nesse novo plano de existência que afinal sempre ali morara ao lado, invisível e mudo.





deuses



A ambrósia e o néctar corriam livremente. Os deuses eram felizes e tinham trabalho porque as gentes acreditavam. Pouco a pouco a crença foi esfriando e eles passaram a sentir fome. Desempregados, foram colocados na Terra. Eram deuses, passaram a ser loucos. Em asilos. Júpiter fumando ópio num manicómio decadente para esquecer o tempo em que alguém confiava nele e por isso ele era. Mercúrio comia bolos e ficou obeso. Vénus olhava com infinita tristeza para as suas mamas que não eram agora senão dois saquinhos de café. Eles tinham sido, nós tinhamos autorizado, Deuses.

Bambu



Agora que estás como querias sentes que és uma flor ou uma árvore? Parece-te possível que o teu corpo consiga transformar-se em estátua de bambu? O sangue se torne sopa caudalosa? A carne se faça celulose rígida? O pulso se converta a zunzum frouxo?
Pensas que um Deus tão grandioso que produz uma Primavera de beleza extrema será mesquinho ao ponto de criar o ser encovado no qual te vais tornar?
Consideras honrosa a tua solidão estéril? Essas montanhas nem vão parir mais plantas porque esgotas a terra fértil pelos caminhos onde passas.
O guarda da alfândega já vomitou três vezes após ter escrito esses teus ais de cobarde alucinado.
O que é um homem?

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O Cérebro e Eu



- Bom dia Cérebro, quer dar-me uma palavrinha?
- Já lhe dei todas as que sabe mas volto a repetir as que quiser.
-Obrigado, não será preciso chegar a tanto. Conte-me por exemplo como se sente hoje,  por obséquio.
- Hoje por acaso sinto-me um bocado inchado.
- Ó diabo, terei de tomar algum comprimido? É que isso geralmente significa dor de cabeça...
- Pois, irá doer-lhe mais a si que a mim.
- De qualquer forma, as consequências podem ser graves também para o meu amigo. Dependendo das causas e da gravidade do edema. Pode ser preciso aliviar a pressão. Não quer que chame o médico? Pode ser preciso abrir a toca.
- Boa metáfora, geralmente basta abrir um buraco, com broca.
- Um orifício para alívio do Cérebro... de broca...
- Ahahah , está inspirado.
- Pelos vistos porque o meu amigo está iluminado. Mesmo sem estar na melhor das formas.
- Pode ser que seja condição passageira. Por acaso não tem por pistas que ajudem a explicar o fenómeno?
- Como assim?
- Alguma coisas que tenha feito nas últimas 24 horas que possa estar na origem deste aumento de líquidos no seio das minhas células...
- Nada. Estou a subir umas escadas.
- A subir escadas. Há quanto tempo?
- Desde anteontem.
- Está a subir escadas há mais de 24 horas? Mas porquê?
- Porque  as escadas ainda não acabaram.
- E onde vão dar essas escadas?
- Não sei, ainda não cheguei ao fim.
- Está explicado o problema: falta de oxigénio.
- Olhe amigo mas eu continuo bem.
- Não vê que em breve ficará afectado?
- Nesse caso tenho de ir mais depressa.
- Não! Isso só vai agravar o problema.
- Sim, mas o que é importante é alcançar o objectivo.
- Mas qual é o objectivo?
- Não sei, mas assim que chegar lá acima conto-lhe.
- Ó homem não vai conseguir dizer nada, desfalecerá.
- Tem a certeza?
- Não há certezas. Só probabilidades.
- Óptimo, então há esperança.
- Irra que é louco!
- Isso quer dizer que o amigo é fraco?
- Não, apenas quer dizer que não me dá ouvidos.
- Dou, dou, o que tenho estado aqui a fazer este tempo todo senão a ouvi-lo?
- Não vejo que me esteja a ouvir.
- E eu não oiço que me esteja a ver.
- Brinca comigo?
- É um convite?
- Estou a perder a paciência.
- Boa, também sou impaciente, seremos mais unidos desse modo.
- Não creio que isso venha a ser possível.
- Ó criatura de pouca fé!...
- Olhe, se não se importa vou sonhar.
- Força, eu vou continuar a subir, não se incomode, sou sonâmbulo.
- Boa "sonambulice".
- Sonhos "cor-de-prosa".

TITÃ





Chove no teu mundo
mas não é água
é magoa espessa
escura, trevas,
líquido anterior aos deuses
de neblina crua
manto de rocha dura.

Chove um ciclo
interminável
de escavados rios
em maciça lua,
rompendo vales
em cada vulcão
gelado de pedra nua.
A tudo envolve a escuridão
de intocável,
tremenda, infinita
candura.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Poemas úteis





Já tentei matar com um poema:
nem corte, coma, comichão,
falta de ar ou enfizema,
em vão.
Já dizia o meu pai
que os poemas não servem
nem para aparar relva.
Pode ser,
mas um dia piquei
um dedo
num soneto.
Até sangrei.

LABUTA



O Amor não é trabalho
mas eu sou ofício.
E quanto mais me esmero
mais me prendo,
ao Amor cedendo
a liberdade.

sábado, 24 de maio de 2014

Dia de reflexão



O PARAÍSO NA OUTRA ESQUINA




Corro desenfreada para a esquina:
onde está o Paraíso?
Na outra esquina.
Vou para lá voando:
onde está?
Na outra esquina.
E agora onde está?
Na outra esquina.
Sempre na outra.
Depois na outra.
Ainda na outra.
E mais além.
Na outra esquina...

sexta-feira, 23 de maio de 2014

nada de nada



 Nada de nada. Não te conto nada. Não te vou dizer que ele me agarrou os cabelos com uma das mãos esticando a cabeça para trás e que com a outra me apertou a garganta. Apenas tenho para ti uma história sobre as calças que vesti hoje, compradas em saldo, são de linho com elastano. Queres tocar?
De resto mais nada. Não te vou repetir as palavras: agora vais ver o que é ser minha. Hoje o dia está ameno, podemos passear na esplanada, bebericar café ou talvez um chá, dos que acalmam ou relaxam. Porque não me vais ouvir dizer nada. Não te vou contar que me tinha pedido namoro na mesa no restaurante ao jantar. Nem morta eu vou partilhar a alegria com que aceitei. Não falo.
Podemos ficar em silêncio a ver o mar. Tudo parece sereno como a ondulação marítima benigna dos dias parados de verão.  Não vais ouvir como ele me atacou a roupa, rasgando-a. Não te explico como o meu corpo serpenteou em vão contra o banco do carro. Está tudo normal. O dia escorre pelas pernas das mesas e cadeirões à beira mar. Tu não me escutas. Eu não abro a boca. Não saberás das dores do corpo amassado. Não vês lágrimas. Nem recebes palavras. As nossas malas são tão parecidas, quase iguais. Tudo bem, fica tudo bem. As calças com os sapatos e as malas. Não sabes do cheiro a sémen que ficou no ar saturado do carro, penetrando-me as narinas. Não direi nada. Nada de nada.
As cores são bonitas, vistosas, o teu sorriso é limpo. Não vais deixar de sorrir pois não irás ouvir as minhas palavras sabotadas. Abortadas às escondidas, melhor desta maneira, que o teu sorriso está limpo, tem de continuar limpo. Pois o dia é ameno e o mar está plano, quase morto. Morto de dentro para fora. E tudo permanece. Paira. Nada virá à superfície. Nada de nada.

POEMA LIGHT



Queijo Philadelphia
numa tosta fina
e uma pitada de oregãos.
Como a vida polvilhada
de coincidências.



quinta-feira, 22 de maio de 2014

FAITS DIVERS




A mulher tresloucada
esgrime o indicador
contra o meu nariz horrorizado.
Como se eu quisesse
alguma coisa com
o seu marido de merda.

FOTOGRAFIA




Falo
aos teus olhos.
O nariz a direito
aponta
a resposta
da linha
dos lábios.
Tensa.
Contrita.
(O que dizes?)
Mirando,
escutando,
decifrando
(o que dizes?)
O que me
parece
um exagero,
fruto
das longas horas
seduzindo
a tua fotografia.

A vírgula

Não tenho especial apreço pela vírgula. Não me entusiasmam períodos longos seguidos por outros maiores ainda. Gosto do que é curto e eficaz. Porque o tamanho que conta não é o que se mete nas frases. Ainda que sejam frases feitas. Muito menos nas demais.
A vírgula prolonga o percurso. Mas não aumenta a satisfação no pisar da meta.

FANTASMA




Que me nasçam mãos.
Que me nasçam pernas.
Que me nasçam cabelos.
Olhos e anca.
Que me nasça um peito
suporte
de um coração repleto,
pesado demais
para a fraca força
de um fantasma.

ÓCULOS



Amar é ter uns óculos
com duas lentes:
uma de aumentar o que é bom,
outra de diminuir o que é mau.
Sem óculos
a realidade é crua,
desassombrada.
As avenidas
são planas,
fáceis de calcorrear.
Com óculos cai-se mais vezes
mas o que são pernas
sem cicatrizes?

quarta-feira, 21 de maio de 2014

BARRIGA DE POEMAS


Numa livraria perto de si a partir de 5 de Julho. Em breve divulgarei novidades sobre o lançamento.

O CONTABILISTA



O contabilista
cata os papéis,
conta a conquista:
contos de reis.
Era uma vez
a fraca liquidez
do equilibrista
cotado em bolsa.
Ganhou o Óscar,
bolçou o freguês,
cortou-se na folga,
não sei que te fez.

COMBOIO


Atravesso a linha
na ponte pedonal.
O comboio
impiedoso
passa por baixo
das minhas pernas.
Corre para mim.
Foge para longe.
Ou não fosse
mais uma
inequívoca
coincidência.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O RIDÍCULO




O Ridículo sorri.
Antes chorasse.
Só ri.
Só, ri.
Ele sabe de quê
mas não adequa
a emoção
à sua categoria.
Não aceita a pena,
a humilhação.

FRIDA KAHLO


Um corpo
uma ferida
uma Frida
uma Frida só.
Um corpo
de aço
quebrado
em duas Fridas
multiplicado
por muitas
feridas.
E só duas
Fridas,
tu e tu
num corpo
de aço.
Doendo sempre
numa cama
onde voavas
ferida
dividida
em muitas Fridas.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O CAIR DO PIANO




O piano caiu com grande estrondo
no chão de madeira.
As tábuas quebraram-se.
Uma nuvem de pó invadiu-me as narinas.
Um tímpano perfurou-se-me.
Um dedo do pé sofreu uma fractura
com esmagamento de tecidos.
Os curativos ajudaram
a natureza a seguir o seu curso.
O processo de cicatrização teve ínico.
Já a reparação do piano foi ímpossível.

Em movimento



Esperar não significa estar parado. Nem tão pouco ter esperança. Para esperar serve o movimento pois deste modo fica-se mais perto e mais preparado para o devir. Mais preparado, mais perto, mais atento. Mais desenganado.

SPLEEN



Dou o baço a torcer:
escorre a amargura
sem remédio.

Pó de Estrelas




Este é um quadro a quatro mãos. Duas que foram íntimas e por isso contam através da cor e da forma uma história que conheço. Outras que estiveram apenas de passagem e se foram para não mais voltar. No entanto deixaram a sua marca aqui e numa fotografia inesquecível que guardo com carinho. Há mãos que simplesmente não podem voar sem largar um despojo de asa.
Mas este quadro conta duas histórias e eu apenas conheço a primeira. Há, no entanto, narrativas que são como segredos dos quais não se quer abrir mão. Como um tesouro precioso. 
A história da primeira parte do quadro é a história do Homem. Viemos das estrelas, diz o pintor. Somos pó de estrelas, pois foi neste Sol que os átomos que nos constituem foram formados a partir dos átomos originados na primeira explosão. É este simples facto, fruto de muitos séculos e de muito estudo, que aqui está representado. Agora esta pequena história também é vossa.

domingo, 18 de maio de 2014

AMIGOS, NÃO HÁ AMIGOS




Quantos eram?
Onde moram?
Ao fim desta longa meia-vida
vivem ainda na mesma casa?
Quantos me conhecem
se lhes bater à porta?
Amigos, não há amigos
sem dia-a-dias de partilhas,
mesa,
desgostos,
cinemas,
noites
mal dormidas, desesperadas
possibilidades amorosas,
luto,
luta,
ressacas melancólicas,
nem amantes há sem cama.
O que resta por fim
da câmpanula protectora,
desse ar aquecido e suave
que nos contaminava?
Quantos átomos desse oxigénio
carrego para sempre?
Era real.
Como tudo o que existe e nasce,
longe da fonte, gasta-se,
dispersando-se
pelo vazio.

sábado, 17 de maio de 2014

ATRASO


Cheguei
com uma vida de atraso
e nem sequer sei
se cheguei.

OS MEUS DIAS



A vida leva-me os dias.
Os dias em que sentia os minutos
um por um
e lhes conhecia os caprichos.
Os dias em que as horas
tinham o seu próprio nome
e me chamavam.
Quero de volta os dias
abertos.
Os dias que em vez de morrer
recomeçavam
a cada manhã.

VELHO AMIGO


O mioma
da mulher
crescera
e chegava
agora
aos joelhos.
O sangramento
obrigou
ao tratamento
radical.
O médico
alegremente
reconfortado
pelo sucesso
da operação
vaticinou:
vai sentir-lhe
a falta,
ao fim
de trinta anos
até a um mioma
se ganha
amizade!


sexta-feira, 16 de maio de 2014

O meu amor não me beija quando como alho



O meu amor não me beija
depois de ter comido alho
diz que meu hálito aleija
e ao beijo procura atalho.

Minha mãe é cozinheira
faz quentes e bons pitéus
desde o cozido à alheira
é de comer e bradar aos céus.

Mas tudo sai bem temperado
no mais esmerado trabalho
com especiarias e triturado
o rei dos condimentos: o alho!

Eis o dilema que me consome
numa indecisão, num ardor:
para amar o rapaz passo fome,
se como não beijo o amor.


JANTARADA




- Ó Américo, dás-me um bife?
- Toma dois.
- Traz três e jantas comigo.
- Melhor ainda, levo seis.

- Ó Américo, tens iscas?
- Quantas comes?
- As que vierem.
- Mas estás com muita ou pouca fome?
- A que me permite o repasto.
- Levo algumas.
- Jantamos juntos.
- Lembramos assim os bocados bem passados.
- E os mal passados...
- Quase em sangue... quase pecado...
- Anda que com vinha d’alhos as iscas marcham bem
- Com elas?
- Lamento mas não sei se chegam
- Que graça... não encontras batatas?
- Batatas é que andam escassas... levo tomates...
- Malfeito fora...
- Também digo. E o mais importante, tens?
- Bagaço? Ainda cá mora algum.
- Assim é que se fala.

O SONHO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS


Chegam de noite
assombrados
sorrateiros
que nem ratos
voltejam
voltejam
chamam-se:
 medo
e medo
e medo
e medo
    e medo...
E o remédio:
acender a luz,
pensar.

Inocentes

Não há inocentes.  Há quem procure os inocentes. Nem esses o são. Inocentes. Mal se nasce começa a longa ou curta travessia para o deixar de ser. Não há inocentes. Nem de um lado nem de outro. Isto quando conseguimos destrinçar lados. Porque a maior parte do tempo está tudo distribuído e emparedado ao longo de um único muro. Inocentes não há. Há é culpas mais ou menos condenáveis. E a culpa, grande ou pequena, tem sempre a mania de fazer barulho, como o arrulhar das pombas.

QUEDA LIVRE




Vento na cara.
Vento no corpo
que cai.
Só vento.
Vou bem.
Enquanto a queda não chega
vou livre.
Não penso no final.
Será rápido.
Só importa o vento
na cara,
no corpo
e a liberdade de ir caindo.
Vou bem
equilibrando-me
no vento
como um floco de neve
ou um pássaro
que não necessita de asas.
Enquanto desço
ainda vejo
algumas árvores crescer.

TRÊS FACES



Tu não és tu. És tu e outro.
Quando estás só és tu contigo.
Comigo és tu e eu.
Tu és esses todos,
partes que te pertencem.
Cada olhar lança a luz que te faz ser.
Cada olhar recebe de volta o fragmento de um todo
que nunca se captura por completo.

SOPRO

Sopras
e logo a vaga se levanta.
A vaga que embala
o barco
na viagem.
Sopras
e os teus lábios
são um corvo
contrito
e vermelho
a fugir
ao nascer
do Sol.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

TUNGUSKA



Haverá quem não tivesse experimentado? O impacto do gelo a arder, a perplexidade, a ausência de vestígios, a réstia de mistério a pairar, uma imagem na memória?

EPITÁFIO

Tão nova p'ra morrer.
Tão velha p'ra ser bonita.

LEITE DERRAMADO




Atravesso a cidade
e passo a noite
debaixo da tua janela.
Ainda lá estou agora.
Espreitando.
Esperando.
Espetando
o pensamento
no teu corpo
por meio segundo
num puro acto de amor
inconsequente
contra o teu cinismo.
Depois choro
sobre leite derramado.
Choro por ver
que o teu final
é seco.

TURISTA ACIDENTAL



Uma mulher bizarra
vê um homem macambúzio,
apaixona-se por ele
e ele fica confuso.
Ela não desiste e voa p'ra Paris
e tudo acaba bem
num belo final feliz.

Na vida, ao invés
Paris não existe
Ela fica sem foda
e nem as putas das unhas de gel
consegue manter.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

AUTO-MUTILAÇÃO



Não
te
falo.

O CONTRÁRIO DE MIOPIA



O que via extenso era escasso.
O que via espesso era ralo.
O que via radioso era pálido.
O que via farto era faminto.
O que via pujante era enfermiço.
O que via terno era frio.

Onde via virtude havia vício.
Onde via respeito havia troça.
Onde via destino havia acidente.
Onde via hipnose havia intoxicação.
Onde via claridade havia breu.
Onde via chuva havia sede.

Tudo se emendou
assim que descobriu e deu uso
a uns óculos
de ver ao esperto.

SILÊNCIO



Oiço
o teu silêncio
longínquo,
compassado,
impassível.

Posso jurar, talvez,
essa cadência
pontual,
perfeita,
serena.

Sigo
passo-a-passo
a distância
em esquadria,
quase cristal.


Recebo
o teu silêncio,
uma respiração.

terça-feira, 13 de maio de 2014

PRISÃO DE PAPOILAS



O sangue é o pão do corpo. Assim as papoilas, salpicando de vermelho a vegetação, servem para nutrir a paisagem de cor e de vida. Aprisionar as papoilas no campo é acorrentar o coração.

ENEMA



Meti a mão na massa,
a mão na merda,
a luva rompeu,
o dedo encardiu,
o cheiro entranhou-se
e já nem se estranha
que longe vai o tempo
desses delicados melindres.
Mas estes são escuros poemas
doutra terra,
imprópria guerra
para tão límpidos
olhos.

MONALISA


Os lábios sabem bem
a causa secreta
do sorriso mavioso.

Não imaginam, os lábios
que os olhos
partilham
o esquivo segredo.

Os lábios são cegos
mas sabem bem
o que os olhos ecoam.
O sonho
reflectido no espelho.

TIME IS ON MY SIDE










O tempo é meu aliado,
meu aliado,
meu aliado.
Colo-me à sua cauda,
espero,
espero,
espero
 com calma
enquanto voas,
voas
 iluminando
a cidade
com o teu desejo.

Tenho vagar,
vagueio
em volta,
em volta
dos caminhos
calcificados
desenhados no chão
pela tua sombra.

O tempo é meu aliado,
meu aliado,
meu aliado.
Um dia irás
cansar-te,
cansar-te
e pousar
suavemente
no meu ombro.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

BOLOTA





Dormi como uma bolota.
O céu era uma árvore seca.
O chão, erva-doce.
Sem sonhos e sem lágrimas.
Corvos velavam.
Cigarras friccionavam sinfonias.
O calor da Lua foi o meu lençol.
Acordei com o bom-dia do Sol
sussurrado ao ouvido.
Fiz-me lama.

TIME IS (NOT) ON MY SIDE







O tempo não está do meu lado.
O tempo é meu inimigo.
O tempo deita-me as mãos à garganta
 apertando com força.
O tempo está do lado do tempo,
sabe que vai ganhar.
O tempo é um demónio
que se ri na minha cara,
pisca-me o olho,
aperta um pouco mais.
O tempo vai ganhar e sabe.
Eu também.
O tempo é um demónio.




ZURRANDO


Zurra no pasto o ónagro
imaginando ser poeta
com vocabulário magro
rima o pobre pateta.

Incha o peito ufano.
Finge ter coração.
Quer ser rei, o insano.
Troca amor por tesão.

Disfarce desvendado
mostra a vil figura.
Parecia apaixonado,
era apenas frescura.

Afirma-se superior
e a morrer de pé.
Tão cego o estupor
cínico, o jacaré.


DESISTIR


Tão inevitável
quanto a noite.
Não será hoje esse dia.