segunda-feira, 16 de outubro de 2017

JÚLIA POSSUI UMA ARMA




está enganada
a hora é certa
preces são
mundanas ameaças
vãs
quando as ausências
involuntárias
são catástrofes naturais
por decifrar
observações patológicas
destreinam a vista
para os melanomas undercover
e seres do outro mundo
longe de casa
saudosos
que só pretendem dizer olá
alguém vai ter de pagar
a corda parte
o tiro corre
mas a culpada
não estará em casa

sábado, 7 de outubro de 2017

memória futura








o tempo plantou-se à espreita nas palavras

e esperou que viesses

a língua depositou caligrafias na pele

decalque

para a memória futura do teu corpo

surpresa

na maré viva

do meu ventre







segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Pessoas do passado, pessoas do futuro

Há dois tipos de pessoas, as do passado e as do futuro.
As pessoas do futuro são as que se transportam diariamente para o dia seguinte. Quando lá chegamos encontramo-las à nossa espera. Antecipam-se ao pensamento e, assim, por lá continuam a habitar.
As do passado não avançam. Fixam-se no dia em que as deixamos de ver. Para que as encontremos temos de nos lembrar delas. Ora, como bem sabemos, recordar é contra as forças da natureza, dá trabalho. Por vezes incomoda.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Fogo




O elemento
da protecção civil
deu o fogo
como controlado
mas não extinto.

Aquiesci,
dei o peito
às cinzas
e ardi
silenciosamente.




terça-feira, 26 de setembro de 2017

POEMA SOBRE A MINHA MÃE (de Duarte Marques)





Mãe

Tu és a melhor mãe que eu já conheci no mundo inteiro.
Nem na Amazónia conheço uma mãe como tu.
Tu és a melhor.
Sempre que te pergunto qual é a tua cor favorita tu dizes:
não sei!
És tu!
Tu és o meu favorito,
favorito entre todo o mundo!
Tratas-me bem como tratas todos os outros cães.
Cães da tua clínica e de todo o mundo.
Mundo de mais de mil cães.
Tu adoras cães.
Os teus olhos brilham como o sol.
Os cabelos como o mar.
És a pessoa que tem mais sentido para mim.
Não sei como é que nasci de uma bela concha como tu.

domingo, 20 de agosto de 2017

Poção Trágica




chego a ver
subindo as escadas
esse leite iluminado
fruto do olho cego
veneno agonizador

as minhas mãos
desirmanadas tomando-o
obedientes
duas cabeças
de cabra
sem mancha
oferta queimada
de cheiro suave
ao senhor

as mãos
como pés que marcham
vão à boca
obstinada
beber o mal
para alcançar o bem

ser doce cúmplice
é cumprir no silêncio
a expiação da culpa

e tudo aceito
por tua vontade
como se também eu
acreditasse
adeus











quarta-feira, 19 de julho de 2017

Space Oddity



Imaginemos por um instante, façam-me lá esse pequeno agrado, o Neil deGrasse Tyson a ler no Facebook as declarações daquele grupo de pessoas que acredita piamente que a Terra é plana.
Eu diria que encolheria ligeiramente os ombros, abanaria desconsoladamente a cabeça duas ou três vezes e passaria adiante, para a estrela mais próxima ou mais distante, aposto que o estudo da mais longínqua lhe dará mais entusiasmo.
O que um grupo de centenas de milhares de “rednecks” escolhe acreditar por ignorância pura não tirará o sono, nem a concentração, a um astrofísico que se dedica à divulgação científica com afinco e alegria. Tyson trabalha, respira e vive para levar o conhecimento a quem o quiser receber.
Aprender é um processo activo, tem de haver uma vontade consciente e voluntária de quem recebe a informação.
Da mesma maneira a ignorância implica uma vontade activa de recusa de conhecimento. A ignorância não é sinónimo de desconhecimento.
Cada um de nós transporta um certo grau de desconhecimento que é sempre elevado em relação à quantidade de conhecimento disponível sobre uma imensidão de assuntos e que é impossível abarcar no tempo de uma vida. Desconhecer é inevitável, e acontece sem a nossa colaboração.

A ignorância, é a busca voluntária e consciente do desconhecimento. Acontece quando alguém sabe que existe uma determinada informação mas prefere manter-se longe desta. Prefere não saber. Trata-se portanto de uma escolha, uma liberdade.
Como devem calcular a ignorância pode ser por vezes útil. Ninguém pode saber tudo sobre tudo, há que fazer opções pois os nossos neurónios são finitos e convêm poupa-los.
Podemos até ter a necessidade ou o simples capricho de ignorar certas pessoas. Quem nunca?
Nem toda a gente me interessa. Eu não interesso a toda a gente. Por isso sou ignorada por algumas pessoas e não posso levar-lhe a mal. Cada um tem os seus gostos. E é assim que está certo.
Terminando este parêntesis e continuando o meu exercício de imaginação, voltemos ao Neil. Ele vai lendo barbaridades na Internet, nada de novo no reino da “Dinamarca”, e tal, quando lhe passa pela vista um discurso de um professor de física lá do burgo, com prémios recebidos, medalhas de mérito, doutoramentos, pós-graduações aos magotes, reconhecimento unânime dos seus pares, em que este afirma que a terra é plana, descobriu em sonhos a noite passada, jurando a pés juntos ser verdade, verdadinha, que eu morra aqui e tudo.
Se calhar, desta vez, não se lhe encolherão os ombros, nem a cabeça abanará dolentemente. Talvez as rugas da testa se tornem mais sulcadas e os lábios contritos de preocupação. Um físico que apregoa uma mentira está a propagar um fogo na floresta do conhecimento e a impedir que as pessoas que buscam a sombra fresca e reconfortante da verdade científica a possam alcançar.
Estou a ver o deGrasse a enfiar o seu equipamento de bombeiro, apanhar a sua mangueira e em segundos ficar pronto para a luta contra o fogo ardente da idiotice. Vejo-o até a ligar o seu SIRESP, felizmente, neste caso, um SIRESP amigo e eficaz: o Bill Maher, o John Oliver, o Stephen Colbert e os jornalistas em geral para desmascarar o Físico-impostor ou o Físico-enlouquecido, não sabemos mas para o caso vai dar igual.
E assim, o Neil Tyson vai usar a melhor arma contra as chamas negras da irracionalidade: a palavra, o veículo do pensamento inteligente do Homem. Se não bastar a palavra, venha o canhão maior: a Matemática.
Se nada disto der certo perguntem ao Major Tom, ele sabe, ele esteve lá.